segunda-feira, 16 de março de 2009

TUDO COMEÇA COM UM TIJOLO...

Ao contemplar o muro, milhões de emoções conflitantes preenchem a cabeça dele.Mas são emoções que não dá pra classificar.Não dá pra explicar.Não é uma sensação de tristeza, de perda.Não é uma sensação de mudança.Não é como se fosse um rito de passagem.A única definição pra essa sensação é que é a sensação que se tem ao observar um muro ser derrubado.
Nunca mais haverá aquele muro.
Ele continuará passando por essa rua, mas não mais verá o muro.Será que sentirá falta?Ou, com o tempo, o “ex-muro” será esquecido?

***

-Queremos salário!Queremos salário! Queremos salário!
Os manifestantes empunham sua placas com dizeres contra os patrões.A polícia fica à espera de que algo aconteça.Talvez algum dos manifestantes comece uma briga, e a polícia tenha que agir.Os policiais estão de costas para a casa do patrão dos operários em greve.Eles ficam com seus escudos em posição, e preparados para pegar o cassetete à qualquer momento.O policial Augusto não espera que isso aconteça.Ele ainda não viu seu pai, mas sabe que ele pode estar em qualquer lugar no meio da multidão de operários.
Seu pai, que não gostou muito quando o filho disse que queria ser policial.”Escravo dos ditadores”, foi o que ele disse.
Os pensamentos de Augusto são interrompidos pela chegada do carro de Ermínio Maltese, dono da fábrica, abrindo caminho no meio da multidão.Os operários se aglomeram ao redor do carro, mas a polícia consegue dispersar a maioria deles, e o carro entra na garagem.
As palavras de protesto aumentam depois disso.Os manifestantes começam a gritar cada vez mais calorosamente.
-Filho da puta!-é o que mais se ouve da boca da multidão.
O policial Augusto começa a suar frio.Ele não quer ter que bater em seu próprio pai.Ele não gostaria de ter que prender seu pai.Com o olhar, ele procura por seu pai no meio da multidão.Seus pensamentos são interrompidos por um tijolo arremessado pelos manifestantes, que o atinge na cabeça.Por sorte de seu ofício, ele usava capacete, e não sofreu ferimentos graves.Mas no instante seguinte, ele perdeu a noção da ordem dos acontecimentos.Ele só se lembra de ter visto todos os policiais e os manifestantes se engalfinhando, numa guerra de pedras, paus e cassetetes.
Augusto se levantou, e chamou pelo pai.Ele correu, usando o escudo para se proteger, enquanto vários dos metalúrgicos tentavam agarra-lo, ou atirar pedras nele.
-Pai!
Ele não ouviu a própria voz, nem tem certeza se realmente gritou pelo pai, ou se apenas pensou ter gritado.De repente, um estouro.E mais outros, seguidos.E muita fumaça tomando conta do ambiente.E a multidão começou a se esvair.
Augusto caiu no chão, sem enxergar nada.Por estar no meio dos operários, ele foi pego pela fumaça, e seus olhos começaram a se sentir irritados.
Um braço o ajudou a se levantar.
-Obrigado...
Augusto tentou ver quem o ajudou a levantar, mas não conseguia abrir os olhos.Ele tateou ao redor, enquanto ouvia os sons dos cascos dos cavalos no chão.Ele tateou até colocar a mão em um muro.Ele se apoiou, e ficou lá, até que algum outro policial apareceu e o levou pra perto do portão principal, onde ele ficou se recuperando, vendo os policiais algemando alguns dos manifestantes, prensando-os no muro, para em seguida joga-los nos camburões.
Após o fim se seu turno de trabalho, augusto chegou em casa.Seu pai ainda não havia chegado.Augusto tomou um banho, jantou, e foi dormir.Ele só teria notícias do seu pai no dia seguinte, quando, ao acordar pra ir pra delegacia, sua mãe lhe falou que seu pai iria novamente pra frente do portão, protestar por melhores condições de salário, e pela libertação de seus amigos metalúrgicos.
Augusto tomou seu café, e foi pra delegacia, pra mais um dia de trabalho.Mais um dia tendo que segurar operários manifestantes.

***

A mãe acorda o filho.
-Acorda, filho.Tá na hora de ir pra escola.
Júnior, de sete anos, estava no primeiro ano do primário.Estava começando a aprender o alfabeto, e a juntar as sílabas.
Sua mãe o vestia cuidadosamente, enquanto Junior ainda acordava.Geralmente, ele só acordava completamente depois que estava todo vestido.Aí, era hora de tomar café, pegar sua mochilinha, e sair pro jardim.No caminho, Junior ia lendo todas as palavras que apareciam pelo caminho.Ele adorava ler as placas de trânsito.Na verdade, ele não lia tudo, mas apenas as poucas sílabas que estava aprendendo, e perguntava pra sua mãe o significado das palavras completas.Ele tentava ler as pichações, mas aquelas letras esquisitas, ele não conseguia interpretar.
-Ê...Nô...Is...Na fi...Tá!
“O que será que isso quer dizer?”, Junior se perguntava.
-Cu...
A mãe olhou rápido pra ele.
-Não pode falar isso, não!
-Por quê?
-Por que não!
-Porquê não?
-Porque não, e pronto!
-Mas o que é “cu”, mãe?
-É uma coisa feia.Não pode falar.Você nunca mais fala isso, tá bom?
A mãe olha pra ele com um olhar que é um misto de severidade e ternura.
-Tá.
E Assim, Junior segue com a mãe pra escolinha.Imaginando o que será “Cu”.Essa palavra iria perseguir sua mente, até o momento em que ele chegar na escola, onde as brincadeiras e as lições o fariam esquecer da palavra.
Até o momento em que ele novamente passasse perto daquele muro, e leria novamente.
Será que um dia Junior iria descobrir o significado da palavra misteriosa?

***

“Fábio HC”.Aos poucos essa mensagem ia tomando forma no muro.Ao terminar, Fábio estava satisfeito.Ele se exibia para os amigos, que fingiam entusiasmo, quando na verdade, cada um deles já tinha pichado seus nomes tantas vezes, em tantos muros, que mais um não fazia diferença.Mesmo aquele muro, já continha aos nomes de todos eles, que não havia nada de especial ter o nome de Fábio junto ao panteão de nomes.Paulão, sem entusiasmo, aponta para a rua.
-A rebeca está chegando...
Fábio olha para sua gata, que chega usando uma saia curta, e uma blusinha bem colorida.Acompanhada das amigas.Fábio e rebeca se beijam.Fernanda, meio entediada, interrompe os beijos do casal.
-Alguém tem algo pra gente fumar, aí?
Os rapazes começam a rir.Thiago tira do bolso um baseado bem pequeno, de tanto ser fumado.
-Eu tava guardando esse aqui prum momento especial.
Os jovens começam a tragar e passar o fumo de mão em mão.Fábio e rebeca são os que menos fumam.Eles estão ocupados, encostados à sobra de um poste, se beijando, e passando as mãos por todo o corpo um do outro.
-Aí, bem que a gente podia fazer que nem os dois ali, né?
Paulão apontava para Fábio e rebeca, Thiago e Dudão riram do comentário, olhando as meninas que vieram com Rebeca, Marcela e Tamires.Tamires apenas olhou para a amiga, com um ar de esnobe.Marcela, mais determinada, respondeu à altura da provocação do rapaz.
-Você acha que consegue dar conta de alguma de nós, por acaso?
Todos riem, debochando de Paulão.
-Tá me tirando, mina?
-Aí, se você não consegue nem segurar esse beque direito, vai conseguir dar alguma?
-He, he. Aí, mano!-Dudão falava, rindo.
Paulão, incisivo, olhou bem nos olhos de Marcela.
-Quer que eu te mostre?
E assim, a conversa entre os jovens segue.As meninas acabam se entregando para os rapazes, que, orgulhosamente, pensam que conquistaram elas, e não o contrário.Dudão, completamente chapado, fica só olhando eles, já que só havia duas garotas além de Rebeca.Pra ele, até que teve uma vantagem, que foi ficar com o cigarro todo pra si.Ele fuma sozinho.Ri muito.E acaba dormindo ali mesmo, no chão.
Um Passat para perto deles.O carro para perto deles.O motorista chama por eles.Thiago se coloca na dianteira dos amigos
-O que é?
O motorista aponta um revólver, e começa a atiras.Thiago é o primeiro a ser atingido.Os outros tentam correr, mas, pegos de surpresa, nenhum deles escapa. Dos tiros.Até Dudão, que por causa da maconha, nem sabia o que estava acontecendo, morreu.
O motorista do carro vai embora.
Fábio tenta se levantar.Ele se arrasta.Se apóia no muro.Ele tenta se erguer, usando o muro como apoio.Mas sua vida se vai antes que ele consiga.
No dia seguinte, reportagens em jornais.As famílias dos jovens ficam inconsoladas.Mas, para a maioria da população, apenas mais um grupo de marginais mortos.
No local, as famílias e amigos prestam homenagens, colocando velas.O muro fica parecendo um altar, com as velas e flores abaixo de onde os nomes dos rapazes estavam pichados.Alguns amigos deles depois picharam mensagens.Algumas de dor, outras de promessa de vingança.
Mas, em pouco tempo, tudo foi quase esquecido.Só o local, que parou de ser freqüentado à noite pelos jovens que vinham da periferia.
O dono da casa mandou pintar o muro algumas semanas depois.E o muro parou de apresentar pichações.

***

O homem observa a derrubada do muro.Ele ainda não tem certeza de qual sentimento está sentindo.Mas uma coisa é certa.O muro não vai fazer falta.Afinal, ele vai ser substituído por uma nova cerca.Uma cerca alta, e eletrificada.Uma cerca vai mostrar uma imagem mais amigável da família Maltese.Uma imagem que condiz com o que as corporações querem mostras no novo século.
Mas é claro que a cerca será eletrificada, afinal, nos dias de hoje, não se pode mais confiar nos filhos marginais da ralé.
O homem sorri, entra no carro, e vai pra casa.Enquanto os empreiteiros continuam o trabalho de demolição do muro da empresa.

2 comentários:

MARCOS ROBERTO MOREIRA disse...

ME LEMBROU PULP FICTION OU SYN CITY. VOCÊ ENTRELAÇOU HISTÓRIAS DIFERENTES TENDO O MURO COMO LUGAR COMUM E PERSONIFICOU O MURO COMO UMA ESPÉCIE DE PROTAGONISTA.

CURTI PRA CARAMBA.

Lexy Soares disse...

Valeu, AMrcos!
AMs cuidado com os Direitos Autorais da frase do MAcário, hein?
hahah